“Um saco que inativa 99,9% de vírus”: Essa notícia é falsa ou verdadeira?

Essa semana, ao fazer compras de mercado, fui surpreendido com esse saco plástico (indicado na foto) que indica que a embalagem inativa mais de 99% da atividade de vírus e bactérias. Na embalagem é indicado que “este produto possui comprovação científica e laudada de sua eficiência. Neutralização de mais de 99% dos agentes virais, bactericidas e microbianos”. Enquanto consumidor me senti feliz ao perceber que a direção do supermercado tem se preocupado em trazer inovações que podem contribuir para a diminuição da disseminação de microrganismos, enquanto químico fiquei curioso para saber se esta embalagem realmente funciona (e como funciona) para a inativação de microrganismos.

No site da empresa que comercializa o saco plástico (https://www.unisold.com.br/anti-v/) são disponibilizadas várias informações acerca do produto, tais como um laudo técnico, um vídeo de apresentação e informações sobre tempo de contato para que o aditivo atue para inativar microrganismos. Em nenhum lugar é indicado o nome do aditivo, que está associado ao efeito inativador de microrganismos,  utilizado no saco plástico, apenas a classe à que pertence – nanopartículas à base de cobre.

A ideia de produção de um saco plástico com propriedade microbicida (que causa a morte de diferentes microrganismos) é válida e importante, uma vez que a disseminação de vários microrganismos pode ocorrer por meio de alimentos comercializados em supermercados. Além disso, o tempo de viabilidade de diferentes microrganismos, em diferentes superfícies, pode ser relativamente alto: alguns tipos de vírus, por exemplo, podem resistir até nove dias em superfícies plástica.

Em 2020, algumas pesquisas indicaram que o tempo médio de sobrevivência do novo coronavírus é diferente para as várias superfícies. Em superfícies de cobre a sobrevivência viral é menor que 4 horas, em comparação com papelão, aço inoxidável e plástico com um tempo médio de sobrevivência de 24 horas, 48 horas e 72 horas, respectivamente. Tal fato tem estimulado pesquisas para o desenvolvimento de substâncias químicas à base de cobre que possam ser aplicadas em diferentes produtos que interagimos em nosso cotidiano. Máscaras, sacos plásticos e outros materiais de uso externo foram os primeiros produtos a incorporar substâncias químicas à base de cobre (tais como as nanopartículas).

Segundo o laudo técnico disponível no site da empresa, para comprovar a eficiência do saco plástico em inativar microrganismos foi utilizado uma norma técnica, a ISO 21702 publicada em 2019, que especifica métodos adequados para medir a atividade antiviral em plásticos e outras superfícies não porosas de produtos tratados com antivirais contra vírus específicos. O microrganismo utilizado como modelo foi um alfacoronavírus, um dos membros da família do novo coronavírus, utilizando 0,24% de aditivo no saco plástico foi observada uma redução viral acima de 99% ao estabelecer contato saco plástico – microrganismo. No entanto, outros microrganismos não foram avaliados, o que indica uma fragilidade em generalizar que o saco plástico pode inativar vírus e bactérias.

Concluímos que a notícia é verdadeira, existem sacos plásticos, disponíveis comercialmente, que possuem aditivos capazes de inativar microrganismos, tal como nosso inimigo do momento – o coronavírus. Esses aditivos, tal como as nanopartículas de cobre podem gerar espécies reativas de oxigênio que interferem nas operações virais e interrompem a membrana viral. Trata-se de mais um aliado na diminuição da disseminação desse vírus, fique de olho e veja se o supermercado que você faz compra já aderiu a esse produto.

Caro leitor, você tem dúvida sobre a veracidade do discurso científico presente em alguma notícia recebida via redes sociais, envie a notícia para nós! Iremos avaliar e posteriormente publicaremos nossas considerações sobre essa notícia.

 

Prof. Dr. Adriano Lopes Romero

Universidade Tecnológica Federal do Paraná – câmpus Campo Mourão

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