Rodada de Negócios aproxima produtor do comprador de café

Evento vai reunir os 30 melhores lotes selecionados em análise técnica, que vão estar à disposição de cafeterias e empresas do ramo

Os cafés especiais paranaenses têm encontro marcado com o mercado. A 2ª Rodada de Negócios, que faz parte da programação do Concurso Café Qualidade Paraná 2026, será realizada em 17 de novembro, no Museu Oscar Niemeyer (MON), em Curitiba. Promovida pela Câmara Setorial do Café do Paraná, que reúne Sistema FAEP, Secretaria de Estado da Agricultura e do Abastecimento (Seab) e Instituto de Desenvolvimento Rural do Paraná (IDR-Paraná), e Capricornio Coffees, a iniciativa aproxima produtores e compradores em um ambiente estruturado para apresentação dos lotes, degustação (cupping) e negociação direta.

Nesta edição, 70 produtores inscreveram lotes e a expectativa é que o evento reúna mais de 50 compradores. Cafeterias, torrefações e demais agentes do mercado de cafés especiais podem se inscrever como compradores até 16 de novembro pelo link disponível no site do Sistema FAEP.

“A Rodada de Negócios permite que o cafeicultor paranaense sente à mesa com quem compra, apresente seu produto e abra portas em mercados especializados, que valorizam a qualidade e pagam mais. É o esforço do produtor transformado em renda”, afirma o presidente do Sistema FAEP, Ágide Eduardo Meneguette.

Do campo à mesa de negociação

O caminho até a Rodada de Negócios começa na propriedade. Um técnico do IDR-Paraná coleta dois quilos de amostra de cada lote inscrito, identifica o material e lacra o produto, garantindo a rastreabilidade. As amostras seguem para aná lise física e sensorial realizada pela Capricornio Coffees, com base na metodologia da Specialty Coffee Association (SCA). Para participar, o café precisa alcançar, no mínimo, 82 pontos. Os 30 lotes mais bem ranqueados garantem vaga.

Os lotes devem ser 100% arábica, com volume entre 30 e 60 quilos, tipo 2/3 ou melhor, peneira 16 ou superior e umidade máxima de 11,5%. O ranking completo é mantido em sigilo, para que os compradores avaliem cada café sem influência prévia durante o cupping.

No dia 17 de novembro, a Rodada de Negócios acontece pela manhã, no Salão de Vidro do MON. As sessões de cupping ficam a cargo da Lucca Cafés Especiais. Depois da prova, cabe ao produtor apresentar seu café e negociar diretamente com os interessados preço, volume, entrega e logística, sem intermediação da organização.

Qualidade que vira negócio

Para quem participou da primeira edição, o saldo foi positivo. Paranaense e fundador do Moka Clube, criado em Curitiba em 2012, Hugo Rocco percorre o país em busca de lotes para assinaturas, lojas e mais de 300 cafeterias atendidas pela em presa. Na primeira Rodada, Rocco arrematou o café de Sirlene dos Santos Souza, vencedora da edição 2025 do Concurso Café Qualidade Paraná na categoria Cereja Descascado. “Comprei um só, mas tive a sorte de comprar o campeão”, conta. “A rodada transforma qualidade em negócio. Para quem compra café, poder provar, conversar com quem produziu e entender a história daquele lote encurta muito o caminho”, avalia.

Com mais de 20 anos no mercado, o barista, mestre de torra certificado pela SCA e consultor Eduardo Scorsin ajudou na organização da primeira edição e, por isso, optou por não comprar lotes naquela ocasião. Neste ano, ele participará exclusivamente como comprador. “O formato aproxima compradores e produtores de um jeito direto. Você prova o café, conversa sobre o processo, entende a origem”, conta.

Scorsin recomenda que o produtor chegue bem-preparado para negociar, com lote pronto para comercialização e preço competitivo em relação a cafés de perfis equivalentes.

Evento colocou café de Ivaiporã no radar de diversas cafeterias

No distrito de Jacutinga, em Ivaiporã, no Vale do Ivaí, a família do produtor Lucas Ravar, asso ciado ao sindicato rural local, cultiva café há mais de 100 anos, com o conhecimento passando de geração em geração. A pequena propriedade familiar tem 25 mil pés e trabalha, desde 2018, tanto com café commodity quanto com especiais.

A produção de especiais é focada em nano e microlotes, justamente porque todo o processo é artesanal. “A colheita e a secagem são todos processos manuais. A gente foca em qualidade”, explica. Os primeiros lotes especiais da família alcançaram 83 pontos e, logo na estreia no Concurso Café Qualidade Paraná, em 2018, garantiram o quinto lugar no Estado. Hoje, a propriedade produz cafés entre 85 e 88 pontos, e alguns microlotes já chegaram a 90.

A família também agregou valor ao grão. Com uma microtorrefação na propriedade, criou a marca Café Ravar, que leva o sobrenome da família e é vendida em feiras, pelo site próprio e no comércio da região. Os cafés ainda competem em concursos locais, como os da tradicional Festa do Café de Jacutinga e da Expo Vale.

Na Rodada de Negócios em 2025, o café de Lucas foi um dos mais procurados para comercialização. O microlote apresentado, avaliado entre 89 e 90 pontos, movimentou a mesa da família ao longo do evento. Mesmo com o interesse, eles preferiram reservar o volume para vender o café já torrado, com a própria marca.

O resultado mais valioso, segundo ele, veio depois. “A gente fez contato com todas as cafete rias que passaram por lá e mantém esse contato até hoje”, conta. A família confirmou participação em 2026 e já avalia quais lotes levará ao MON.