Nos Estados Unidos, produtores participam do desenvolvimento das tecnologias antes de chegarem ao campo

Delegação do Sistema FAEP conheceu soluções empregadas por startups norte-americanas em propriedades, diante de problemas reais, antes de ganharem escala comercial

Uma tecnologia pode funcionar perfeitamente dentro de um laboratório e fracassar quando chega à propriedade rural. Poeira, sol, chuva, jornadas prolongadas de uso e até a dificuldade de operar um equipamento estão entre os fatores que podem separar uma boa ideia de uma solução realmente útil ao produtor.

Esse distanciamento entre o desenvolvimento e a realidade do campo foi abordado durante a visita da delegação do Sistema FAEP à Reservoir Farms, na cidade de Salinas, no Estado da Califórnia, nos Estados Unidos. O espaço atua na aproximação entre startups de tecnologia agrícola e produtores rurais, permitindo que novas soluções sejam testadas e aperfeiçoadas em condições reais antes de chegarem ao mercado.

“Uma tecnologia pode funcionar bem no laboratório, mas, quando vai para o campo, fica exposta a condições mais difíceis. A ferramenta precisa ser resistente e passar por muitas horas de testes para provar que consegue funcionar em escala comercial”, explica Grace Algeo, gerente da incubadora.

A resistência física, porém, é apenas parte do desafio. Segundo Grace, uma nova ferramenta também precisa atacar um problema concreto da propriedade, como reduzir a necessidade de mão de obra, promover melhorias na pulverização ou até mesmo automatizar uma operação.

“Ela precisa preencher uma necessidade específica do produtor. Além de ter uma engenharia robusta, precisa ser simples e intuitiva, algo que o agricultor consiga realmente utilizar”, afirma.

Outro fator decisivo é o retorno financeiro. Mesmo uma solução tecnicamente eficiente tem poucas chances de adoção se o ganho proporcionado não justificar o investimento. Essa relação custo-benefício precisa ser considerada desde o desenvolvimento do produto.

“O retorno econômico é absolutamente vital para qualquer produtor. Se a tecnologia custa mais do que o valor que consegue gerar, aquele investimento não se justifica. Precisa existir algum ganho concreto para quem adquire a solução”, destaca Grace.

A lógica encontra eco entre os produtores paranaenses que estão nos Estados Unidos, participando da viagem técnica promovida pelo Sistema FAEP. Presidente do Sindicato Rural de Cambará, Aristeu Sakamoto avalia que a comprovação prática é fundamental antes de incorporar qualquer novidade à propriedade. Isso porque, diferentemente de setores em que um erro pode ser corrigido rapidamente, uma decisão equivocada na lavoura pode comprometer meses de trabalho.

“As ideias precisam ter sua eficiência e sua eficácia comprovadas no campo. O produtor quer ter certeza de que aquilo será viável e vai trazer resultado. A agricultura trabalha com ciclos. Se perder um ciclo, as consequências podem ser grandes”, observa Sakamoto.

Ajustes nos produtos

Na prática, a participação do produtor rural durante o desenvolvimento de um produto ou ferramenta pode provocar mudanças que dificilmente seriam percebidas dentro de um escritório. É dessa forma que opera a Agerpoint, empresa que desenvolve ferramentas para análise de lavouras a partir de diferentes fontes de informação, como imagens de satélite, drones, celulares e equipamentos autônomos.

A Agerpoint realiza provas de conceito com clientes no Brasil e em países da América Central. Algumas mudanças realizadas em produtos surgiram após o contato direto com propriedades e profissionais do campo, que ajudaram a equipe a entender como a tecnologia será usada. Uma mudança envolveu adaptar as cores do aplicativo para melhorar a visualização da tela do celular sob o sol, enquanto outra consistiu em aumentar o tamanho dos botões.

“Quando vamos para uma fazenda, aprendemos os casos reais de uso. Esses tipos de mudança ocorreram diretamente a partir do feedback dos usuários”, explica Gary Rudolph, vice-presidente de Engenharia da Agerpoint.

Para Sakamoto, a aproximação entre quem desenvolve tecnologia e quem está na lavoura é justamente um dos aspectos mais relevantes do modelo observado durante a viagem técnica.

“Algumas tecnologias que vimos têm resultados promissores e poderiam ser aplicadas à nossa realidade. Todas as culturas têm problemas a resolver. Essa interação é que permite encontrar o caminho para uma solução”, conclui Sakamoto.

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